
Cantor, compositor, escritor (para adultos e crianças), actor (de teatro e cinema), realizador, Sérgio Godinho é, para citar uma das suas canções clássicas, o verdadeiro “homem dos sete instrumentos”. Mas, numa carreira artística de invejável longevidade, que se prolonga há 35 anos de modo quase intocável, foi o seu trabalho enquanto cantor-compositor que o tornou num ícone capaz de reunir à volta das suas canções gerações de diferentes idades, vivências e aspirações.
O insuperável acervo de canções que escreveu e gravou desde que se estreou em disco em 1971 inclui alguns dos clássicos maiores da música cantada em português dos últimos 50 anos, passadas de boca em boca e de geração em geração como raros outros músicos nacionais conseguiram assinar. “O Primeiro Dia”, “A Noite Passada”, “É Terça-Feira”, “Com um Brilhozinho nos Olhos”, “Espectáculo”, “Cuidado com as Imitações”, “Lisboa que Amanhece”, “Liberdade”, “Coro das Velhas”, “Caramba”, “Dancemos no Mundo”, “Barnabé” para apenas citar uma dúzia, atestam o seu talento para traduzir de modo pessoal e intransmissível, numa conjugação inseparável de palavras e melodias, experiências e emoções universais.
E, contudo, este músico responsável por algumas das maiores pérolas da poesia feita para ser cantada em português é alguém de insaciável curiosidade artística que nunca pensou vir a fazer uma carreira desta longevidade — quanto mais carreira como músico! Apesar de ter estudado música em criança, no Porto, onde nasceu em 1945, foi à psicologia que se dedicou quando decidiu prolongar os seus estudos universitários, partindo para a Suiça para aí estudar com o lendário Jean Piaget. No entanto, rapidamente percebeu que o seu futuro estava nas artes, e, abandonando a psicologia e impossibilitado de regressar a Portugal — onde seria obrigado a cumprir o serviço militar como refractário — parte para França, aí assistindo ao Maio de 68.
É em França que Sérgio Godinho se começa a dedicar mais a sério à canção — nos intervalos do teatro que lhe ocupava a maior parte do seu tempo, através da sua participação, durante quase dois anos, na produção parisiense do musical “Hair”. O seu talento de compositor e letrista vai-se forjando através de um paciente trabalho de aperfeiçoamento “caseiro” do “diamante em bruto” que o seu talento já provava ter, mas também do contacto com companheiros de geração que haviam escolhido exilar-se em Paris como José Mário Branco e Luís Cília, que “acordam” a vontade de compôr em português.
É, aliás, José Mário Branco que primeiro “revela” Sérgio Godinho, ao musicar quatro letras suas no seu álbum “Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades”, e ao indicar o seu nome à gravadora Sassetti, que o contrata e edita, em 1972, o seu álbum de estreia “Os Sobreviventes”, que lhe valeu o primeiro de muitos prémios da imprensa e do público nacionais ao longo da sua carreira. Por essa altura, o teatro continuava a ser o seu “ganha-pão” oficial, através de várias companhias com as quais residiu na Holanda e no Canadá; durante este período edita ainda o segundo álbum, “Pré-Histórias” (1973).
Regressando a Portugal já depois do 25 de Abril, Sérgio Godinho passa a dedicar-se a tempo inteiro à música, embora com passagens pontuais como actor pelo teatro e pelo cinema (para o qual compõe também, musicando filmes como “A Confederação” de Luís Galvão Teles, “Os Demónios de Alcácer Quibir” de José Fonseca e Costa, ou “Nós por Cá Todos Bem” de Fernando Lopes). No entanto, apesar do fervor da “canção revolucionária” do pós-25 de Abril, o cantor-compositor distancia-se claramente do panfletarismo de alguns contemporâneos, assinando neste período alguns dos seus temas mais populares como “A Noite Passada”, “O Namoro” ou “O Primeiro Dia”, incluídos nos álbuns “À Queima-Roupa” (1974), “De Pequenino Se Torce o Destino” (1976), “Pano-Cru” (1978) e “Campolide” (1979).
No entanto, é em 1981, em plena “invasão” do rock português, que Sérgio Godinho assinará o seu primeiro grande êxito comercial, com o seu sétimo álbum de originais, “Canto da Boca”, editado quase simultaneamente com a banda sonora que escreveu para o filme “Kilas, o Mau da Fita”. Ao longo da década de 1980, continuará a dedicar-se a outras actividades extra-musicais, continuando a trabalhar como actor e a compor para filmes, mas prestando especial atenção aos mais novos, através da sua peça premiada “Eu, Tu, Ele, Nós, Vós, Eles” e das canções que escreve para a série televisiva “Os Amigos de Gaspar”. Ao êxito de “Canto da Boca”, sucederão “Coincidências” (1983), composto em parceria com alguns amigos brasileiros e editado depois de uma extensa estadia forçada no Brasil, “Salão de Festas” (1984), a compilação “Era uma Vez um Rapaz” (1985), “Na Vida Real” (1986) e o álbum com as canções de “Os Amigos de Gaspar” (1988). Produzido por António Emiliano, “Na Vida Real” será o primeiro passo numa inflexão sonora que levará o cantor-compositor a convidar músicos e produtores de universos aparentemente distantes do seu para trazer novas dimensões e novas soluções à sua música.
Os anos que se seguem serão, aliás, anos de experiências — quer a nível artístico (dirigindo três curtas-metragens para a televisão) quer a nível musical, num período que, até à mudança de século, apenas trará três álbuns de originais: “Aos Amores” (1989), “Tinta Permanente” (1993) e “Domingo no Mundo” (1997), entrecortados pelos registos ao vivo “Escritor de Canções” (1990), “Noites Passadas” (1995) e “Rivolitz” (1998). Ao mesmo tempo que recebe convites para colaborar com artistas da nova geração como os Diva, Despe & Siga ou os Da Weasel, toda uma nova geração de fãs que crescera a ouvir as suas canções na boca (e nos gira-discos) dos pais assume como suas as letras e músicas que Sérgio Godinho havia escrito ao longo da sua carreira, confirmando o cantor-compositor como capaz de fazer a ponte entre gerações muito diferentes mas unidas na admiração pelo seu trabalho. Prova disso é o convite dos Silence 4 para colaborar no tema “Sextos Sentidos”, do qual escreve também a letra — excepção absoluta na carreira de um grupo que até aí apenas cantara em inglês — e o seu espectáculo em parceria com os Clã, “Afinidades” (cujo registo será publicado em disco em 2001).
Aos Clã, aliás, Godinho vai buscar o baixista e compositor Hélder Gonçalves para produzir, em parceria com o ex-Despe & Siga Nuno Rafael — que entretanto se tornara seu director musical e guitarrista da sua nova banda de palco Os Assessores —, o seu primeiro álbum do século XXI: “Lupa” (2000), confirmando a sua inflexão sonora em direcção a uma reinvenção da sua sonoridade mantendo intactas as características únicas da sua composição. Essa reinvenção foi levada ainda mais longe no álbum que celebrou (com dois anos de atraso, devido ao longo tempo de gestação) o seu 30º aniversário de carreira discográfica: “O Irmão do Meio” (2003) recriava 15 dos seus grandes clássicos com a presença de convidados especiais e amigos como José Mário Branco, Caetano Veloso, Camané, Carlos do Carmo, Teresa Salgueiro, Rui Veloso ou os Xutos & Pontapés, de acordo com as novas coordenadas sonoras da sua música. “O Irmão do Meio” tornou-se no seu maior êxito comercial de sempre — 1º lugar do top de vendas e disco de Platina — e os concertos triunfais que o acompanharam viram edição em 2004 no DVD “De Volta ao Coliseu”.
Desde então, Sérgio Godinho escreveu as canções da peça musical “Portugal – uma Comédia Musical” e viu editada, já este ano, a sua “biografia musical” “Retrovisor”. E a sua carreira discográfica atingiu em 2006 o opus 25 com a edição de “Ligação Directa”, primeiro trabalho de material original em seis anos, de novo produzido por Nuno Rafael e Hélder Gonçalves. Tendo sido considerado pelo público e pela crítica especializada um dos discos do ano, “Ligação Directa” é apresentado no Centro Cultural Olga Cadaval, seguido por uma pequena temporada no Teatro Maria Matos, onde esgota a sala cinco noites seguidas. Estes concertos deram o mote para um disco ao vivo: “Nove e Meia no Maria Matos”, lançado em Janeiro de 2008. “É Tão Bom”, o primeiro single, é também uma das surpresas deste “Nove E Meia No Maria Matos”, um tema inicialmente composto para a série televisiva “Os Amigos de Gaspar” mas que tem ganho vida nova nas apresentações ao vivo. Um tema emblemático para os fãs mais jovens de Sérgio Godinho. Em Abril de 2008, Sérgio Godinho regressou ao Teatro com a peça “Onde Vamos Morar” de José Maria Vieira Mendes, com encenação de Jorge Silva Melo. Esta peça, que teve em cena no Convento das Mónicas em Lisboa, e em 2009 fez uma digressão por todo o país.
O ano passou com inúmeros concertos pelo país, tendo culminado num impressionante espectáculo de despedida de 2008 na Praça do Comércio em Lisboa. Em 2009, Sérgio Godinho continuou com o espectáculo “Nove e Meia no Maria Matos”, tendo tocado em diversos palcos nacionais.
Em Outubro de 2009, juntou-se a José Mário Branco e a Fausto Bordalo Dias para quatro noites que ficarão na história da música portuguesa. Juntos, em palco, três dos nomes mais importantes da música deste país, activos, com obra feita, percurso e carreiras artísticas que se tocam em vários pontos, quer poética, quer musicalmente – Três Cantos. Foram quatro noites com lotação esgotada (22 e 23 de Outubro no Campo Pequeno e 31 d eOutubro e 1 de Novembro no Coliseu do Porto).
Discografia:
Os sobreviventes (1972)
Pré histórias (1973)
À queima roupa (1974)
De pequenino se torce o destino (1976)
Pano crú (1978)
Campolide (1979)
Kilas, o mau da fita (1981)
Canto da boca (1981)
Coincidências (1983)
Salão de festas (1984)
Era uma vez um rapaz (1985)
Na vida real (1986)
Os amigos de Gaspar (1988)
Aos amores (1989)
Escritor de canções/ ao vivo (1990)
Tinta permanente (1993)
Noites passadas/ ao vivo (1995)
Domingo no mundo (1997)
Rivolitz /ao vivo (1998)
Lupa (2000)
Afinidades (2001)
Biografias do amor (2001)
Irmão do meio (2003)
O melhor de Sérgio Godinho – 71-86 (2004)
De volta ao Coliseu – DVD (2004)
Ligação Directa (2006)
Nove e Meia no Maria Matos/ ao vivo (2007)