
O principal facto a saber em relação aos Snow Patrol é que, 14 anos depois de terem começado como uma banda de estudantes na Universidade de Dundee, continuam a funcionar, esplêndida e imprevisivelmente, de forma instintiva. “O que há de notável e assustador na nossa banda”, declara Gary Lightbody, o líder e principal compositor, “é como tudo foi acontecendo à medida que íamos avançando. Tem havido muito pouco planeamento. Deixamos que as coisas aconteçam, quer por acidente quer por intenção deliberada.”
Um desses primeiros acidentes famososo foi o do nome. A banda de Lighhtbody era conhecida como Polar Bear (urso polar) – daí o nome do álbum de estreia em 1998, Songs For Polarbears – mas foram forçados a mudar depois de descobrirem que esse era o nome que o baixista dos Jane’s Addiction dava ao seu projecto paralelo. “Snow Patrol” tinha já sido escolhido para eles por um amigo que não apreciava o nome Polar Bear; e foi assim que os Snow Patrol assinaram em 1995 com a editora Jeepster, casa dos seus então heróis indie de Glasgow, os Belle and Sebastian.
Agora que a banda já se notabilizou como gigantes em vendas – o último álbum, Eyes Open, foi o mais vendido no Reino Unido em 2006 – é bom lembrar que os Snow Patrol passaram os anos 90 tão falidos que, a determinada altura, Lightbody teve de vender a sua colecção de discos para pagar a renda. A Jeepster acabou por, finalmente, os deixar cair em 2001, depois do segundo álbum, chamado de forma presciente When It’s All Over We Still Have To Clear Up, que foi incapaz de estabelecer uma ligação com o público para além da sua pequena base de teimosos fãs. “Passámos dez anos a fazer discos comprados por seis mil pessoas”, confirma Lightbody. “O sucesso para nós não é uma coisa de tops, é quando aparecemos para um concerto e vemos a casa cheia.” Nos primeiros tempos, a maior parte da sua audiência estava na Irlanda, país onde cresceu Lightbody – nascido em Bangor (Irlanda do Norte) – antes de ir estudar para a Escócia. “Temos bastante sorte por termos, ao que parece, três públicos da cidade de origem em Belfast, Dublin e Glasgow, embora tenhamos extraordinárias recepções sempre que actuamos em qualquer sítio da Irlanda ou da Escócia.”
Os Snow Patrol começaram a tornar-se consideravelmente maiores por todo o Reino Unido e nos Estados Unidos depois de terem assinado com a editora Fiction em 2003 e estabelecerem uma relação com o produtor Garrett “Jacknife” Lee. “Uma influência extraordinária”, segundo a avaliação de Lightbody, “Jacknife tornou-se um membro indispensável da banda. Não me imagino a trabalhar com outro produtor”. Sob a orientação inspirada de Lee, os Snow Patrol e o seu cada vez mais carismático vocalista, Lightbody, perderam algumas asperezas indie e começaram a aperfeiçoar a sua inteligência pop. Em 2003, lançaram Final Straw, o seu primeiro álbum a atingir o número 1, que rendeu à banda o seu primeiro êxito do Top 5, “Run”. Também lhes deu o Ivor Novello para o melhor álbum em 2004, na estreia do prémio.
Em 2005, mudaram-se para um estúdio remoto no meio da Irlanda, Grouse Lodge, e acabaram Eyes Open, berço de uma das canções emocionalmente mais poderosas do século XXI, “Chasing Cars”. Com mais de 100 mil passagens na rádio no Reino Unido, dois milhões de downloads nos Estados Unidos e o reconhecimento como “Melhor Canção de Todos os Tempos” pelos ouvintes da Virgin Radio, “Chasing Cars” também teve direito à rara distinção de fechar, em Julho de 2006, a última emissão do programa “Top Of The Pops”, o programa televisivo sobre discos mais vendidos que mais tempo durou na BBC. O efeito no álbum Eyes Open foi fenomenal, conduzindo a vendas finais contabilizadas de 4,7 milhões de discos no mundo inteiro.
Por esta altura, é provável que bandas com a mesma sorte tivessem optado por umas férias longas e dispendiosas ou se tivessem reorganizado para novo assalto às tabelas dos discos pop mais vendidos no mundo inteiro. Lightbody e companhia não fizeram nenhuma das duas, optando, em vez disso, por convocar Jacknife Lee e gravar um álbum que os levou numa inesperada odisseia criativa de Galway, no oeste da Irlanda, para Grouse Lodge, em County Meath, até ao lendário Hansa Studio, em Berlim, onde Bowie e muitas outras grandes figuras dos anos 70 gravaram trabalhos seminais. Em sintonia com a tradição inovadora do estúdio, o álbum A Hundred Million Suns é o conjunto de canções mais ambicioso e estimulante do grupo até hoje; um conjunto em relação ao qual, Lightbody sente que a sua banda, acidentalmente, está claro, alcançou a quadratura do seu círculo.
“Este é, de longe, o nosso disco mais completo. A Hundred Million Suns soa ao casamento entre tudo aquilo que aprendemos nos anos na Jeepster e nos anos na Fiction transformados em algo novo e arrojado. A nossa agudeza e a nossa qualidade indie voltam outra vez com todo o lado pop dos últimos dois discos. Há muita melodia aqui e não se consegue disfarçar aquilo que se faz com ela. Este álbum está impregnado de toda a nossa história e temos esperança que também esteja do nosso futuro.”
Entrevista com Gary Lightbody sobre a criação de A Hundred Million Suns
P – Porque é que decidiram gravar metade do álbum na Irlanda rural e o resto no Hansa Studio em Berlim?
R – Queríamos um contraste entre o ambiente rural da Grouse Lodge, que fica realmente no meio do nada, onde estivemos isolados durante sete semanas, e a impetuosa vida citadina. Foi uma completa mudança de ritmo. Depois de seis semanas na Grouse Lodge, por mais idílico que fosse o ambiente, estávamos estagnados. Além disso, o nosso produtor, Jacknife Lee, sempre quis trabalhar no Hansa e sabíamos a história do lugar, com o Bowie e o círculo do krautrock dos anos 70. Permitiu-nos matar muitos coelhos só com uma cajadada.
P – Acha que criaram música muito diferente em cada um dos estúdios que utilizaram?
R – Definitivamente, havia uma atitude e uma energia muito diferentes em Berlim. Já antes tínhamos gravado numa cidade. Fizemos o Final Straw em Londres, porém, como conhecíamos Londres tão bem, não foi particularmente estimulante. Enquanto que, no caso de Berlim, era uma nova aventura. É um sítio incrível e teve um efeito galvanizador no disco. Foi onde a maior parte das canções começaram a fazer sentido para nós.
P – Será que Berlim foi a razão para o single “Take Back The City”?
R – Bem, é difícil de acreditar, mas foi escrito em Grouse Lodge e é uma canção inspirada em Belfast! Mas a crueza veio do Hansa, em Berlim.
P – Em termos de som, este é um disco muito diferente dos dois anteriores…
R – É verdade, completamente. Estivemos três ou quatro semanas nos dois estúdios Hansa, o Hansa Ton e o Hansa Platz. O “Platz” é o sítio onde foram gravados todos os grandes discos dos anos 70 e o “Ton” fica dois andares abaixo e é, normalmente, um estúdio para dança e música electrónica, ou seja, o sítio certo para soltar a imaginação de Jacknife. O Hansa Platz ainda tem muito do velho equipamento. Há um forte sentimento de que muita música importante passou por ali. Mas é um sítio relaxado para trabalhar porque tem muitas janelas, muita luz natural e grande energia.
P – O enorme sucesso do vosso último álbum, Eyes Open, afectou a forma como abordaram A Hundred Million Suns?
R – Não acho que tenha afectado, a não ser por fazer parte de um processo pelo qual, como banda, nos tornámos melhores em estúdio. Nem sequer gostávamos de gravar antes. Acho que esta foi a experiência mais feliz. Fizemos o disco que queríamos. Jonny, Nathan e Tom trabalharam muito nos seus instrumentos para conseguirem chegar aonde precisávamos de chegar. O Pablo já é um músico muito dotado numa série de instrumentos e eu passei muito tempo a trabalhar nas minhas letras, por isso, entre todos, acho que desta vez fomos uma unidade musical muito mais forte e montámos as coisas com muito mais cuidado do que habitualmente fazíamos. O Jacknife divertiu-se à grande. Acho que vai lá voltar com outras bandas.
P – Sentiu que neste álbum tinha que arranjar um êxito que pudesse ombrear com “Chasing Cars”?
R – Adoramos essa canção e a liberdade que nos deu, mas, desta vez, aquilo que tentámos foi usar essa liberdade de forma inteligente, em vez de arranjarmos outra canção como essa. Não há qualquer razão para voltar a percorrer o mesmo caminho. Teria sido mais seguro mas queríamos fazer um álbum que fosse mais desafiante para nós e para quem o ouve do que qualquer outra coisa que fizemos antes. Eyes Open nunca poderia ter tido uma faixa de 16 minutos como “The Lightning Strike”. É uma reacção positiva a “Chasing Cars”.
P – Onde é que escreveu as canções para este álbum?
R – Estou sempre a escrever. Quando fomos para County Galway escolhemos 20 canções que queríamos gravar e ficámos numa casa nas margens do Lough Corrib durante seis semanas. A seguir, mudámo-nos para Grouse Lodge.
P – O que é que sente em relação às letras deste disco?
R – É a primeira vez que estou tão perto da data de lançamento e não quero mudar nada! Acho que são as melhores que já escrevi. Desta vez, tentei escolher mais temas. Todos os outros álbuns foram essencialmente sobre o fim das relações.
Gary Lightbody sobre A Hundred Million Suns, FAIXA A FAIXA
1 “If There’s A Rocket Tie Me To It”
Este é um disco de amor e não um disco sobre o fim das relações, mas, por mais maravilhoso que seja, está integrado num contexto de um mundo tão belo como aterrador. E é por isso que muitas das imagens se referem ao espaço. Tal como se fosse um “tirem-me daqui”. Não penso que estamos condenados mas há escuridão por aqui, que paira sobre mim em vez de em mim.
2 “Crack The Shutters”
É a canção de amor mais pura que alguma vez já escrevi. Ainda mais do que “Chasing Cars”. Deleita-se com a beleza e a maravilha de alguém que se ama com todo o coração.
3 “Take Back The City”
Esta foi inspirada por Belfast e pela Irlanda do Norte em geral mas pode ser sobre qualquer cidade e a relação que estabelecemos com o lugar de onde somos originários. É sobre as razões pelas quais cresci confuso em relação ao meu país e as razões porque hoje o amo tanto. O lugar de onde somos (muitas vezes, meramente por estarmos contra ele) tem um grande impacto no tipo de pessoa que somos.
4 “Lifeboats”
Griff Rhys, dos Super Furry Animals, é um herói para mim e um mestre do abstracto e das imagens expressivas e penso que tenha sido ele a inspirar a minha abordagem a “Lifeboats”. As minhas canções sobre o passado estão muito enraizadas na realidade. Neste disco, finalmente, rompi com esse padrão e olhei para os meus sonhos e para imagens ligeiramente distorcidas em vez de me basear em coisas específicas. Este é um sonho que tive sobre uma árvore que esticava como veias em todas as direcções, para cima e para baixo, para fora e transversalmente e acabava por se parecer com gelo escuro cheio de fendas e, visto de cima, tinha a minha forma junto de alguém o que foi um bocadinho assustador. Normalmente, esqueço-me dos sonhos mas este assentei-o.
5 “The Golden Floor”
A letra explica-se a si mesma, trata-se de uma canção de amor, mas o arranjo é invulgar. Começa comigo na guitarra e voz e a seguir Jacknife colocou estas percussões esquisitas por cima o que, em termos de som, mostra que podemos ir para lugares que nunca tínhamos explorado. O golpe no tambor no refrão é feito por uma planta gigante.
6 “Please Just Take These Photos From My Hand”
Esta é uma anomalia no disco que pode ser interpretada como uma canção sobre o fim de um relacionamento, só que. na verdade, é sobre o meu passado e esses rostos que levamos para todo o lado como instantâneos numa caixa. É sobre como vou perdendo a minha história. Durante a gravação do disco andava preocupado com a minha memória porque parece que me está a abandonar rapidamente.
7 “Set Down Your Glass”
Normalmente não minto mas há uma mentira nesta canção. “I painted this.” Eu não pinto. Mas soa muito melhor do que “eu escrevi isto”. E é menos invasivo como forma de dizer o quanto este momento, esta pessoa, representa para mim.
8 “The Planets Bend Between Us (For You)”
Por mais prosaico que possa parecer, esta canção é sobre a minha casa na Irlanda do Norte que fica em Belfast Lough, perto de uma pequena praia. Há qualquer coisa no facto de estar numa praia durante o Inverno, não há ninguém, a ventania sopra, a chuva cai obliquamente e há algo de redentor em gritar ao vento. O verso na canção “a hundred million songs” proclamou-se como o título do álbum. Capta a vastidão do universo e a nós como pequenos pontos dentro dele. Exprime o grande som do disco e coloca tudo em perspectiva.
9 “Engines”
Esta foi escrita em Galway. É outra canção de amor mas tem a ver com dois sentimentos muito diferentes, indicados pela rigidez do verso e a abertura do refrão. As palavras no verso parecem perguntar, pedir que a música se abra e irrompa/expluda.
10 “The Disaster Button”
É sobre perder o controlo sobre nós próprios, tão simples quanto isso. Não estou a glorificar nada, antes pelo contrário. A figura feminina é uma referência de frieza, calma e desejo intenso. Todas as mulheres nas minhas canções tendem a ser assim porque muitas vezes eu sou o oposto.
11 “The Lightning Strike”
Esta foi escrita em três partes. Não se consegue escrever uma canção de 16 minutos do pé para a mão porque é preciso atingir um estado quase zen para não perder a ideia ou enlouquecer, mas estas três canções funcionavam tão bem juntas que era óbvio que tinham de estar juntas. Os metais e o refrão na primeira parte, “What if This Storm Ends”, são um momento importante, gravado no Olympic Studio em Londres. A secção do meio, “Sunlight”, está ambientada na costa do extremo ocidental da Irlanda. A última parte, “Daybreak”, foi realmente afectado pelo Hansa. Tem este balanço hipnótico do krautrock e guitarras heróicas em êxtase por cima. É um final adequado para o disco por causa disso.