
Os U2 formaram-se em 1978 depois de Larry Mullen ter afixado um anúncio de “músicos procuram-se” no quadro de avisos da Temple Mount School em Dublin. Adam Clayton descobrira o rock’n’roll aos 13 anos quando comprou a sua primeira guitarra acústica e, posteriormente, convenceu os pais a comprarem-lhe um baixo. “Soava muito bem. Profundo, encorpado e gratificante.”
Desde o princípio que os U2 se distinguiam pela sua paixão. “Éramos uma banda mesmo antes de sabermos tocar”, assim dizia Bono nas primeiras entrevistas. The Edge lembra-se de ler todas as semanas os jornais de música do Reino Unido, o NME e o Sounds, e ouvir falar sobre este “jovem louco chamado Paul Hewson”.
Os quatro adolescentes, que inicialmente se chamavam Feedback, ensaiavam na cozinha de Larry, com Bono na voz, The Edge na guitarra, Adam Clayton e Larry encarregues da secção rítmica de baixo e bateria. Inspirados no punk mas isolados da moda distante pelo Mar da Irlanda, os Feedback passaram a The Hype e depois a U2 e rapidamente começaram a ganhar reputação a nível local pela paixão das suas actuações.
“Suponho que um momento decisivo foi ver os The Jam no Top of the Pops”, lembra The Edge. “E perceber que, na verdade, não saber tocar não era um problema (…) a música tinha mais a ver com energia e com tentar dizer alguma coisa e não necessariamente sobre a qualidade musical.”
Depois de um breve período a serem agenciados por Adam, conheceram Paul McGuiness, só que a edição precoce, em 1979, na Irlanda, do EP “U23” pela CBS, veio a revelar-se como uma coisa isolada. A banda esperou até ao ano seguinte para assinar contrato a longo prazo com a Island Records de Chris Blackwell. “Fiquei impressionado pela qualidade, talento e ambição desses quatro músicos, que mesmo assim não conseguiam contrato com uma editora”, lembra McGuiness. “Toda a gente do planeta recusava os U2 até finalmente conseguirmos encontrar uma casa para eles na Island Records.”
O primeiro single dos U2, “11 O’Clock Tick.Tock”, foi lançado em Maio de 1980. Boy, o seu álbum de estreia, foi editado cinco meses mais tarde – promovido por outro single, “I Will Follow” –, seguiu-se-lhe October, um ano depois, e em Maio de 1983, conseguiam o primeiro número um no Reino Unido com o álbum War, o culminar de uma trilogia de álbuns produzido por Steve Lillywhite.
War incluía singles de sucesso como “New Year’s Day” (o vídeo foi gravado com temperaturas abaixo de zero na Suécia) e “Two Hearts Beat As One”, enquanto o álbum ao vivo Under a Red Blood Sky, lançado em Novembro desse ano, entrou para o Top 30 da Billboard dos EUA. Foi também o fim do primeiro capítulo para a banda e o princípio de um quarto de século de colaboração em estúdio com Brian Eno e Daniel Lanois. The Unforgettable Fire, gravado num salão de baile do castelo Slane na Irlanda, gerou um dos temas mais icónicos dos U2, “Pride (In The Name of Love)”… além de muito mais experiências. “Na América, causou uma reacção verdadeiramente adversa quando editámos The Unforgettable Fire”, lembra Bono. “As pessoas pensavam que éramos o futuro do rock’n’roll e diziam: ‘O que é que estão a fazer com este maldito álbum hippie do Eno?’ “Devemos muito a Eno e Lanois por conseguirem ver através do coração dos U2.”
Três anos antes a banda tinha feito a primeira parte dos Thin Lizzy no espectáculo anual ao ar livre em Slane.
Dezassete anos depois, já estabelecidos como o mais importante espectáculo ao vivo de rock’n’roll, voltariam ao mesmo sítio para actuar em nome próprio em dois concertos esgotados, mais tarde editados num DVD ao vivo, “U2 Go Home”.
Nos anos 1980, a tournée de nove meses que se seguiu ao lançamento de The Unforgettable Fire incluiu 54 datas nos EUA e levou à inesquecível actuação no Live Aid, em Julho de 1985. “Durante o ‘Bad’ ele foi à procura de umas miúdas para dançar”, lembra Larry. “Parecia que nunca mais voltava. Já estávamos bastante nervosos e quando o Bono desapareceu, sobreveio um certo pânico.”
Não perceberam na altura, mas este seria um cenário que chamaria a atenção de um público completamente novo para a sua música. Passariam dois anos antes que a banda editasse The Joshua Tree, em 1987, cujo título provisório original era “The Two Americans”. Se as digressões constantes tinham feito com que os U2 hipnotizassem os EUA, a América estava prestes a devolver o cumprimento – os singles “With Or Without You” e “I Still Haven’t Found What I’m Looking For”, com os seus toques gospel, chegaram ao topo das tabelas de vendas de singles nos EUA.
The Joshua Tree venderia mais de 20 milhões de discos e, na edição de 1987 dos Prémios Grammy, ganhou para a banda o título de Álbum do Ano e de Melhor Espectáculo Rock, o primeiro de uma série recorde de vitórias nos Grammy. Em 2007, uma versão remasterizada do álbum foi editada para assinalar o 20.º aniversário do seu lançamento original e no seu livro, “U2byU2”, a banda fala detalhadamente do quão integradas são as canções.
Quando a revista Time colocou a banda na capa com o título “Rock’s Hottest Ticket”, tratava-se apenas da quarta vez que uma banda chegava à capa da revista – depois dos Beatles, The Band e The Who.
Um ano depois, em 1988, os U2 chegaram ao número um do top britânico de singles e lançaram nos cinemas Rattle & Hum, um filme sobre os espectáculos ao vivo durante a digressão nos EUA da Joshua Tree Tour. O álbum duplo Rattle & Hum incluía o single “Desire”, que chegou a número um, e uma colaboração com BB King, “When Love Comes To Town”. A banda encerrou a sua digressão Lovetown Tour, em 1989, com uma série de concertos no final de Dezembro no The Point Depot, em Dublin, onde Bono anunciou “(…) isto é o fim de algo para os U2 (…) temos de ir embora e (…) e voltar a sonhá-lo outra vez.”
E fizeram-no, foram-se embora para os Hansa Studios, em Berlim, com Brian Eno e Daniel Lanois, e sonharam um álbum chamado Achtung Baby, que levou a sua música numa direcção completamente diferente. A banda e a equipa de produção entraram em confronto sobre a direcção a tomar, mas deste tumulto nasceu um dos seus álbuns mais aclamados de sempre. Tal como refere Daniel Lanois, “se consegues colocar os quatro numa sala com instrumentos nas mãos vais obter resultados. Isto tem muito a ver com o meu trabalho – conseguir que estejam numa sala e toquem.” Com “The Fly”, “Mysterious Ways” e “One”, os U2 começaram os anos 1990 com um novo som, uma nova reputação nas pistas de dança e alguns dos seus maiores êxitos.
Zoo TV, a digressão seguinte, começou a 29 de Fevereiro de 1992, na Florida, e circum-navegou o globo duas vezes em quase dois anos, antes de acabar no Japão a 10 de Dezembro de 1993. Achtung Baby veio a provar ser um álbum pioneiro e o director de produção Willie Williams dedicou-se a reinventar as tournées de rock com a ajuda de um “vídeo wall” de 40 metros, justapondo 24 horas de notícias, imagens efémeras de canais de televendas e slogans pós-modernos para reforçar os níveis de ironia. (“TUDO O QUE SABEM ESTÁ ERRADO”). Entre os convidados figuravam Lou Reed, Salman Rushdie (na altura em que estava escondido em consequência da publicação de “Os Versículos Satânicos”) e Benny Andersson e Bjorn Ulvaes dos ABBA, que interpretaram “Dancing Queen” com a banda. Ainda não consegue imaginar como era? Era assim. Nos dias que antecederam a eleição presidencial, Bono interrompia o alinhamento do concerto para fazer chamadas por satélite para a Casa Branca de Bush. Nunca conseguiu que lhe passassem a chamada para o Presidente George Bush – poucos imaginariam que, não muitos anos depois, os presidentes e os políticos passariam a atender estas chamadas – mas através da ligação por satélite da Zoo TV também telefonou para uma Sarajevo destruída pela guerra, ouvindo as vozes de uma cidade sitiada graças ao jornalista independente Bill Carter.
Durante a digressão europeia da Zoo TV, a banda gravou um álbum inteiro, o marcante e experimentalista Zooropa (1993), que apresenta Johnny Cash na voz principal do último tema, “The Wanderer”. A passagem da Zoo TV por Sidney foi mais tarde remasterizada digitalmente e lançada em DVD, “Zoo TV Live From Sidney”.
A chamada para Sarajevo inspirou um dos temas de Passengers: Original Soundtracks Volume I, o álbum mais experimental em que a banda colaborou – previsivelmente com Brian Eno no centro da mistura. “Miss Sarajevo” incluía uma participação estelar de Luciano Pavarotti. A coroar este período emocionante surgiu Pop (1997), onde a virulência das pesadas letras era coberta com modernos ritmos de dança, num conluio com o DJ Howie B. “Os temas são o amor, o desejo e a crise da fé”, explicou Edge. “As coisas do costume.” A digressão daí resultante, POPMART – que fez com que a banda se tornasse no primeiro grande espectáculo realizado em Sarajevo depois da Guerra da Bósnia – foi outro espectáculo visual imaginado por Willie Williams que introduzia o rave-rock de “Mofo” e “Discotheque” a uma nova geração de fãs.
Passaram quatro anos até sair outro álbum, mas a espera valeu a pena: All That You Can’t Leave Behind inclui canções que ganharam o Disco do Ano nos Prémios Grammy em dois anos consecutivos – “Beatiful Day”, em 2001, e “Walk On”, em 2002 – a única vez em que tal aconteceu. Editado em 2000, All That You Can't Leave Behind ganhou sete Grammy e vendeu mais de dez milhões de discos em todo o mundo. “Acho que foi uma ideia muito boa gravar um disco que voltasse a soar como os U2”, explicou Paul McGuiness. “Chegou a N.º 1 em 32 países.”
Seguiram-se-lhe as 113 datas de Elevation Tour, com uma abordagem igualmente despida e a atenção centrada nas canções. “Não era verdadeiramente minimalista”, diz Edge. “Mas comparado com POP qualquer coisa pareceria um regresso aos conceitos básicos.” O desenho arrebatou Larry: “O uso do coração como passarela para chegar à audiência e a forma como o coração em si se enchia de pessoas era fantástico. Era quase como um espectáculo num clube dentro de um recinto.”
How To Dismantle An Atomic Bomb (2004) era “muito um disco de guitarra”, explicou Adam. “‘Vertigo’, ‘Love and Peace’, ‘City of Blinding Lights’, ‘All Because of You’, são todos temas essencialmente rock. Muitos deles são regressos aos nossos primórdios, de modo que é como se a cada ano tivéssemos acumulado um pouco mais e isto é aquilo que somos agora.” Gravado com produtores novos e antigos – Steve Lillywhite, Chris Thomas, Flood, Jacknife Lee, Brian Eno, Daniel Lanois, Nellee Hooper e Carl Glanville trabalharam no álbum –, o 11.º disco de estúdio foi lançado em Novembro de 2004, tendo entrado directamente para número um em 25 países, e o primeiro single, “Vertigo”, ganhou três prémios Grammy, incluindo o de Melhor Canção Rock. A digressão Vertigo que se lhe seguiu foi a que obteve mais receitas nesse ano e o álbum confirmou os U2 como “a maior banda de rock and roll do mundo”. Durante 2005, os U2 actuaram para mais de 3,2 milhões de pessoas. Em Março, Bruce Springsteen nomeou a banda para o Rock‘n’Roll Hall of Fame, descrevendo-os como “os guardiães de alguma da mais bela arquitectura sónica do mundo do rock‘n’roll”. E a seguir houve o Live 8, transmitido ao vivo para metade do planeta e que abriu com os U2 a interpretar “Sgt. Pepper’s Lonely Heart Club Band” com Paul McCartney. Na cerimónia dos Grammy de 2006, os U2 levaram para casa cinco prémios, incluindo o invejável Álbum do Ano para How To Dismantle An Atomic Bomb. Estas novas vitórias aumentaram o número de Prémios Grammy ganhos pela banda para 22, mais do que qualquer outra.
Em 2006, enquanto passavam um mês a gravar nos estúdios Abbey Road, em Londres, os U2 colaboraram com os Green Day na gravação de uma versão da canção “The Saints Are Coming” dos The Skids. Uma gravação em benefício da Music Rising, uma instituição de caridade fundada por The Edge que visa ajudar a reconstruir o coração e a cultura musicais de Nova Orleães, substituindo os instrumentos perdidos durante os furacões Katrina e Rita. A banda editou três colecções de “Best of”: The Best of 1980-1990, The Best of 1990-2000 e U218 Singles, em 2006, que também incluía a nova canção “Windows In the Skies”.
Cinco anos depois do lançamento de How To Dismantle An Atomic Bomb, em Março de 2009, a banda editou No Line on the Horizon. O seu 12.º álbum de estúdio foi escrito e gravado em Fez (Marrocos), Dublin (Irlanda), Nova Iorque e nos Olympic Studios, em Londres. O álbum recorre aos talentos de produção dos colaboradores de longa data Brian Eno e Daniel Lanois, com produção adicional de Steve Lillywhite.