
Com Worrisome Heart, o seu álbum de estreia, Melody Gardot mostrou o seu dom instintivo para transformar as tradições do jazz e dos blues em proporção com a sua capacidade de recuperação pessoal . Mas até os seus mais fervorosos admiradores ficariam espantados perante o gigantesco salto criativo em frente que deu com o sucessor, My One And Only Thrill. Misturando ritmos latinos, “finger-snapping” blues e “torch songs” profundas e ardentes, é um álbum que parece ter sido moldado por várias vidas de amor, perda e desejo, embora, obviamente, ela esteja apenas nos 20 e poucos anos. Mas a recepção entusiasmada, com críticos e fãs de acordo quanto a Worrisome Heart, significou que subitamente viu a sua vida a andar ao triplo da velocidade, com Melody e a banda a saltarem entre concertos, hotéis e aeroportos, à medida que as solicitações aumentavam em vários continentes.
“Estivemos em digressão nove meses, ainda que, por vezes, com sorte, conseguia uma semana livre”, explica, por entre dentadas no sushi. “Mas, na realidade, nunca tive tempo livre porque estava a fazer o novo álbum durante a digressão. Isso foi intimidatório, mas também espantoso porque me deu a oportunidade de trabalhar e pensar, trabalhar e pensar de novo, como tal pude reflectir melhor em vez de ser obrigada a tomar decisões repentinas constantemente. Foi interessante fazer as coisas desta maneira, sem dúvida.”
Apesar da sua agenda exigente, assegurou-se que os seus planos para My One And Only Thrill eram escrupulosamente cumpridos.
“Entrámos no estúdio com todas as canções escritas, o que era importante porque precisamos de ter uma boa ideia acerca de como o álbum vai ser. Depois podemos decidir que canções precisam de cordas e quais as que vivem sem elas. É um processo interessante de desmontar aquilo que se faz de modo a arranjar espaço para outra coisa qualquer, como seja dividi-la ao meio para criar espaço para a orquestra.”
Significou isto que a sua banda – faça uma vénia Charles Staab (bateria), Ken Pendergast (baixo), Patrick Hughes (trompete) e Bryan Rogers (saxofone) – teve de tocar muitas vezes com um autocontrolo superior ao habitual, se bem que, graças à afinidade que tinham construído durante meses a tocar juntos, ela não quisesse entrar em estúdio sem eles.
“Estava a dizer-lhes 'podem tocar todo este material, mas não quero que façam absolutamente nada!'”, diz ela, rindo-se. “Mas foi excelente porque estes são os meus tipos e isso torna o disco especial. O que torna fantástico um disco é ter pessoas à tua volta que estão de uma forma instintiva no teu espaço mental e sabem aquilo de que precisas para essas canções. Estes tipos tocam comigo há tempo suficiente para saber isso sem precisarem de pensar. Adoro viajar com a minha banda pois isso dá-nos a hipótese de criarmos realmente laços e de estarmos juntos.”
Assim, o autocontrolo e economia que os músicos levam para as suas actuações ao vivo reaparecem no álbum, mas a arma secreta do disco é a adição dos arranjos orquestrais de Vince Mendoza. Além de ser um artista a solo e compositor, Mendoza, nativo do Connecticut, notabilizou-se em colaborações com puros sangue musicais como Al Di Meola, Joni Mitchell, Kyle Eastwood e Joe Zawinul, tendo até escrito arranjos para o álbum Swing When You’re Winning de Robbie Williams. No álbum de Melody, os seus arranjos correm uma escala que vai dos elegantes e saltitantes ritmos brasileiros aos dramas taciturnos. Um destaque óbvio é “Our Love Is Easy”, um épico vaporoso de amores proibidos no qual a voz sensual de Melody desliza por cima da escrita para cordas intensamente dolorosa de Mendoza. Ecos de Peggy Lee ou de Frank Sinatra no seu período Only The Lonely não surgem provavelmente por acaso.
“Estávamos a gravar na Capitol e o Vince dizia 'se não começas a escrever canções mais felizes nunca irás ter uma carreira'”, ri jovialmente Melody. “Ele estava completamente a brincar! Mas de certa maneira foi irónico, porque a sensação de 'Our Love Is Easy' é a de que tudo está óptimo, mas ao ouvir o arranjo ao início soa quase como uma procissão funerária.. É assim por razões muito específicas, porque a canção é sobre um grande amor e a perda de um grande amor. Há um verso que diz assim 'they say the poisoned vine breeds a finer wine' (dizem que a vinha envenenada produz um vinho melhor), o mesmo é dizer que as coisas que não te são oferecidas por vezes dão maiores garantias. Nisto reside a ironia, que o amor ao qual te referes é belo, mas está assente no conhecimento de que é um amor impossível.”
A magia de Mendoza foi também espalhada de maneira generosa pela faixa que dá título ao álbum. É uma balada melancólica que parece suspensa no espaço, mantida no ar pela delicada interpretação de Melody ao piano e uma trémula miragem de cordas. A meio da canção, a orquestra muda de rumo num desvio dramático, ascendendo em espiral num torvelinho sonoro reminiscente de uma banda sonora de Bernard Hermann para um filme de Hitchcok. Também banhado de cordas sumptuosas e melancólicas está o sonho profundamente sentido de “Deep Within The Corners Of My Mind”, enquanto o elegante tom blues de “Lover Undercover” (uma canção que já testara perante o público dos concertos) está construída sobre longos fraseados de cordas em legato.
Mas há também bastantes mudanças de ambiente. Um tema recorrente do disco é a paixão louca de Melody pela música da América do Sul, em particular do Brasil.
“Adoro música brasileira, é um dos meus géneros favoritos”, entusiasma-se. “Adoro os anos bossa nova de Stan Getz, adoro Getz/Gilberto, Jobim, Caetano Veloso… alguma da música mais espantosa veio dali. E penso que tem uma sentimentalidade muito característica da própria música brasileira. A voz é suave e abafada mas as letras são belas e poéticas.”
As tendências latinas de Melody mostram-se em “If The Stars Were Mine”. Construída a partir de percussão e guitarra acústica, é uma melodia simples mas fácil de cantar, com uma letra pintada com cores tropicais vivas.
“Sim, tem um toque brasileiro. Na verdade é uma canção que escrevi para a criança que eventualmente venha a ter ou talvez nunca tenha, mas terei crianças à minha volta. É uma espécie de canção doce e terna para uma criança. O último verso surpreende-me sempre, quero fazer 'ahhhh!' a meio – 'if the world was mine I’d paint it gold and green, I’d make the oceans orange for a brilliant colour scheme, I’d colour all the mountains make the sky forever blue, so the world would be a painting and I’d live inside with you’ (se o mundo fosse meu pintava-o de dourado e verde, tornava os oceanos laranja para uma combinação de cores brilhantes, coloria todas as montanhas, fazia o céu azul para sempre, para que o mundo fosse um quadro e eu vivesse contigo dentro dele'). É super, super doce!”
Ecos da infância – desta vez a sua – surgem de novo na versão de “Somewhere Over The Rainbow”, uma canção que foi gravada por muitos artistas mas nunca no estilo singular com sabor latino de Gardot. Melody atribui a sua redescoberta da peça ao facto de ter passado bastante tempo com a avó (“ela era da Europa de Leste, uma mistura mas sobretudo polaca”), que costumava tomar conta dela quando a sua mãe solteira tinha de sair para o trabalho.
“Ela era uma pessoa generosa, uma mulher realmente boa e, aparentemente, uma das únicas pessoas da minha família com quem me pareço. De qualquer modo, quando era pequena, a minha avó fazia-me ver ‘O Feiticeiro de Oz' milhões de vezes. Alguns anos mais tarde, sentei-me para escrever e dei de caras com estes acordes e percebi que não era uma canção que estava a escrever, mas uma que já tinha sido escrita – 'Somewhere Over The Rainbow'.”
No estilo misterioso dos escritores de canções, Melody fundiu as suas memórias da canção com a paixão pela música brasileira e os resultados são tão revigorantes como inesperados. Os arranjos radiantes e suaves de Mendoza complementam de uma forma perfeita a sua voz deliciosamente relaxada, soprando as teias de aranha da melodia tão querida para criar um clássico do século XXI.
“Se vais fazer uma versão, tens de fazer algo completamente diferente com ela”, medita Melody, “caso contrário é como 'para quê preocupar-me?' E há canções que ninguém deveria tocar, como “One For My Baby” de Sinatra – deixem-na em paz, já está feita.”
Há um ano, muita da discussão acerca de Melody Gardot centrava-se na forma como recuperou de um terrível acidente de viação e usou a música como uma tábua de salvação terapêutica. Mas com My One And Only Thrill, os únicos tópicos de conversa serão a sua habilidade musicalidade, a sua composição de canções e o seu impressionante crescimento artístico. Senhoras e senhores, nasceu uma estrela.