Há nomes que dispensam introduções. Há figuras cujo trajecto se confunde com a História da música. Há percursos incontornáveis que nos habituamos a seguir, rendidos à sua imponência e criatividade. Falar de Kalú é falar de rock mas também de revolução, energia e intervenção. Fundador da maior instituição da música portuguesa, o baterista dos Xutos & Pontapés expõe-se, em 2013, pela primeira vez, a solo: «Comunicação», a sua estreia em nome próprio, chega às lojas a 28 de Janeiro, tendo apresentação oficial agendada para dia 7 de Fevereiro, no Teatro do Bairro, em Lisboa, e dia 14, no Hard Club, no Porto.
Para Kalú, editar a solo, ao fim de mais de três décadas de carreira, foi «um processo natural», instigado, sobretudo, «pelos amigos e família», confessa. Um dos maiores incentivos chegou de Ramon Galarza, o amigo e colaborador de longa data que acabou por responder pela produção de «Comunicação». «O Ramon trabalhou com os Xutos no 88, no Ao Vivo e no Gritos Mudos: na altura, ficámos amigos e a amizade manteve-se até hoje», afirma. Nas palavras do produtor, em «Comunicação», «Kalú ramifica o seu percurso criativo em mais uma aventura».
As 10 canções que compõem «Comunicação» nasceram quando o baterista estava a trabalhar no mais recente registo dos Xutos & Pontapés. «Estávamos todos a fazer músicas e eu fui fazendo coisas mas sentia que, algumas, não se encaixavam no perfil dos Xutos». Reuniu estas ideias e não as deixou morrer: Kalú assina todas as músicas das canções de «Comunicação», cujas letras ficam repartidas entre Vasco Ferreira e Ramon Galarza. Mas que se desengane quem pensa que a única surpresa de «Comunicação» é encontrar Kalú em nome próprio: «Pela Noite Dentro» marca, igualmente, a sua estreia como letrista.
Gravado no Tcha Tcha Tcha, Kalú descreve o processo de concepção de «Comunicação» como algo «tranquilo. Inicialmente, gravei tudo em casa: as baterias, as guitarras, os baixos, as vozes, os coros», o que fez com que, em estúdio, todo o processo se revelasse célere e fluido. Em «Comunicação», Kalú responde pelas vozes, bateria, harmónicas e sintetizadores, ficando as guitarras entregues a Marco Nunes e João Alves e os baixos a Nuno Lucas. Como convidados, a ficha técnica conta também com as teclas de Manuel Paulo, a guitarra de Tiago Ferreira, o saxofone-barítono de Gui, a secção de metais de Miguel Marques, JM Raminhos e João Cabrita e os coros de Elaísa. «Gravámos o álbum todo de seguida, sem pausas, e, em quatro ou cinco meses, ficou pronto. Não queria abandonar os ensaios nem os concertos dos Xutos, por isso, tive que me repartir pelos dois lados».
«Tu Aí», «Falhas» ou «Sem Eira Nem Beira» são documentos inesquecíveis aos quais Kalú deu voz. «No historial dos Xutos, desde o primeiro álbum, cantei sempre umas músicas. Esta coisa de cantar esteve sempre presente». No entanto, Kalú assume que, a parte mais complicada de «Comunicação» passa por, pela primeira vez, dar a «cara». «Cantar mas estar sempre na bateria é uma coisa. Estar presente, sempre a dar a cara é muito difícil eu já admirava aquilo que o Tim faz mas, agora, admiro ainda mais. Ser-se frontman é muito difícil», admite. Com alguma timidez, o Comendador confessa que, nos Xutos, «quando há paragens, uma pessoa pode dar um jeito na tarola, olhar para o lado... Agora, não! Custa um bocadinho: as pessoas estão sempre a olhar para mim. Ali, não consigo desviar o olhar», brinca.
Quem conhece Kalú, sabe que a música faz parte dele, como o sangue que lhe corre nas veias. E também sabe que, para si, o rock é tão importante como o ar que respira. Não é, por isso, de estranhar que «Comunicação» tenha sido feito, única e exclusivamente, pelo prazer de tocar. «Fiz este álbum porque adoro fazer músicas. Estou a divertir-me imenso, a adorar esta experiência. E espero que as pessoas gostem». O que torna as palavras de Kalú ainda mais espantosas é a inevitável análise da viagem que o trouxe até «Comunicação»: mais de três décadas de carreira depois, ainda é possível ficar deslumbrado? Quando, com um sorriso de menino, Kalú confessa que, com «Comunicação», «parece que voltei a nascer para a música», a curiosidade aumenta ainda mais no dia 28 de Janeiro, a espera chega, finalmente, ao fim!