Pela primeira vez em muito tempo, o hip hop pode, verdadeiramente, dizer que está a receber uma nova geração de MCs. Claro que há nomes que ajudaram ao nascimento da cultura e da música, aqueles que as pessoas dizem que ouviam quando estavam a crescer. Mas, agora, surge a primeira geração que pode, provavelmente, assumir que cresceu a ouvir, única e exclusivamente, hip hop. Se não estiverem de acordo é porque, provavelmente, ainda não escutaram ScHoolboy Q com atenção.
Apesar do artista que nasceu Quincy Matthew Hanley só ter começado a debitar as suas rimas em 2007, a sua expressiva e carismática presença tornou-o, de forma veloz, numa das mais importantes novas vozes a emergir do rap. Desde que «Habits & Contradictions» entrou em rotação, ele tornou-se uma peça central.
Nascido na Alemanha, filho de pais militares, Q passou os primeiros três anos da sua vida no Texas, até a sua família se mudar, definitivamente, para Los Angeles. Como tantos antes de si, a vivência de ScHoolboy, em Los Angeles, ficou dividida entre o desporto, a escola, as drogas e os gangues. «Passei pelo mau, pelo bom e pelo muito mau», afirma Q, que ganhou a sua alcunha por ser o melhor na escola mas também o mais duro nas ruas. «Aprendi o que fazer e como me meter em sarilhos. Arrependo-me de muitas das coisas que fiz, cenas sobre as quais, agora, odeio falar porque as ultrapassei. Cenas de que me arrependo. Mas foi tudo isso que me tornou aquilo que sou». Ao crescer na esquina entre a rua 51st e a Figueroa, ScHoolboy Q vivia, apenas, a 8 minutos de distância do Staples Center, onde Kobe Bryant e o Lakers iam acumulando troféus. Durante algum tempo, Q considerou a possibilidade de seguir um trajecto semelhante, já que jogava futebol, basebol, basquetebol e tinha, até, feito parte da equipa de natação do seu liceu. No entanto, incapaz de resistir às tentações que o envolviam, rapidamente, deu por si a mergulhar num abismo feito de crack, tiroteios e prisão. «Foi, nessa altura, que comecei a rappar. Pensei que tinha tudo controlado mas não tinha. Mas, ao mesmo tempo, descobri que tinha uma paixão que não conhecia».
Citando como principais influências artistas como The Notorious B.I.G., Nas e 50 Cent, o estilo de vida da Califórnia é, rapidamente, sentido na sua voz, no seu calão e nos seus conteúdos. A sua capacidade de misturar as duas principais correntes do hip hop norte-americano fazem com que, a cada nova rima, ele brilhe ainda mais. «A maioria das pessoas está à espera que eu diga que a minha maior influência é o 2Pac, por causa do sítio de onde venho», diz, respeitosamente. «Mas ele não teve grande impacto na minha música. Sempre ouvi muito mais rappers da Costa Este. Foi, sempre, habitual eu entrar em discussões sobre quem era melhor, Dogg Pound ou Mobb Deep».
A primeira oportunidade de Q entrar numa disputa sobre a sua música surgiu em 2007, com a sua mixtape de estreia, «ScHoolboy Turned Hustla», que o apresentou ao público da Costa Oeste. Em retrospectiva, Q considera que não era um exemplo das suas melhores qualidades. Ainda assim, o disco reuniu atenção suficiente para despertar o interesse da Top Dawg Entertainment, etiqueta com a qual assinou, juntando-se a um elenco de outras estrelas emergentes, como Jay Rock, Kendrick Lamar e Ab¬Soul. Apesar do seu rap revelar a existência de um homem com um pé na rua e outro no estúdio, essa vida quase lhe fechou todas as portas ainda antes da sua carreira ter, sequer, começado. «A Top Dawg esteve quase a dispensar-me, por causa do que eu fazia nas ruas», recorda. «O Ali sentou-se comigo e disse-me que eu tinha que atinar. Disse-me que eles viam algo em mim que eu não era capaz de ver. Aquela conversa salvou-me a vida». Convencido de que o rap era o seu destino, o recém-focado ScHoolboy Q editou uma nova mixtape «Gangsta & Soul», em 2009. Apesar do registo revelar algum amadurecimento, foi preciso esperar pela chegada do seu álbum de estreia, «Setbacks», para que ScHoolboy Q sentisse que algo estava, finalmente, a acontecer.
«Os outros dois projectos foram muito prematuros», diz Q, cujo perfil se tinha vindo a tornar cada vez mais incontornável graças a diversas colaborações, como em «Michael Jordan», de Kendrick Lamar. «As pessoas achavam que eu era só um tipo com um nome engraçado. Mas, desta vez, eu tinha rimas que iam fazer com que as pessoas se lembrassem, também, das canções. Foi a forma perfeita de anunciar ao mundo que tinha chegado e de onde vinha». Marcado por êxitos imediatos, como «#BetIgotsomeweed», «Im Good» e «Birds & The Beez», «Setbacks» revelava o equilíbrio que a maioria dos jovens rappers só alcançam quando têm a sorte suficiente de começarem a ser chamados de veteranos. E, enquanto Q, pessoalmente, descreve «Setbacks» como o resumo da sua vida até então, o seu sucessor, «Habits & Contradictions», representava um novo capítulo num livro que, seguramente, mudou o cenário daquilo que se espera ouvir num álbum de hip hop da Costa Oeste.
«Sinto que tenho que me dar às pessoas, que não posso fingir», afirma, referindo-se a «Habits & Contradictions». «Eu sou um tipo com uma energia feliz mas quero que as pessoas me conheçam, aos meus altos e baixos. Em algumas canções, falo de roupa, de miúdas e de erva mas, noutras, vou directo à realidade». Descrevendo o álbum como uma prequela de «Setbacks», parte de onde tinha ficado, com «Druggy And Hoes Again», uma nova versão, uptempo, de um momento do registo anterior. «Habits & Contradictions» permitiu, também, a Q colaborar com um dos seus produtores preferidos, The Alchemist, em «My Homie». «Trabalhar com ele foi um sonho tornado realidade», confessa, referindo-se à canção onde expõe as suas experiências com amizades falsas e traições. «Fiquei à beira das lágrimas, quando ele me disse que sabia quem eu era». Q também oferece uma olhar muito pessoal em «Hatin Joint», que conta co-produção de Mike Will. «Os rappers agem como se nunca tivessem odiado ninguém. Eu já», admite. «Já todos odiámos. Os rappers adoram referir uma quantidade enorme de pessoas que os odeia porque é que não são eles, de vez em quando, o fruto desse ódio?». Se as coordenadas lançadas em «Habits & Contradictions» servirem de pistas, ScHoolboy Q vai, certamente, ter a sua dose de pessoas a odiá-lo. Mas será aposta segura garantir que terá ainda mais pessoas a amá-lo.